O 35 Centro de Tradições Gaúchas foi fundado em Porto Alegre em 24 de abril de 1948. É reconhecido como o primeiro CTG e tornou-se modelo para centenas de entidades. Sua criação não aconteceu de repente: nasceu da mobilização de jovens que, no ano anterior, haviam organizado a primeira Ronda Gaúcha.
Na década de 1940, Porto Alegre crescia, recebia influências culturais nacionais e internacionais e discutia o lugar das referências regionais na vida urbana. Estudantes vindos de diferentes partes do estado sentiram falta de costumes associados ao interior e começaram a criar um espaço para praticá-los na capital.
O Grupo dos Oito
Em setembro de 1947, oito jovens a cavalo acompanharam os restos mortais de David Canabarro durante uma cerimônia da Liga de Defesa Nacional. O grupo ficou conhecido como Grupo dos Oito. Na mesma ocasião, João Carlos Paixão Côrtes e companheiros retiraram uma centelha da Pira da Pátria e abriram a Ronda Gaúcha no Colégio Júlio de Castilhos.
A experiência reuniu palestras, música, dança e práticas campeiras. Depois do encerramento, os participantes continuaram encontrando-se. A vontade de dar permanência à iniciativa levou à fundação de uma entidade.
Um centro com linguagem própria
O nome “35” fazia referência a 1835, ano de início da Revolução Farroupilha, e teria sido proposto por Luiz Carlos Barbosa Lessa. A organização adotou uma linguagem inspirada na estância: o presidente tornou-se patrão; diretores, capatazes; reuniões, charlas; sede, galpão. Glaucus Saraiva foi o primeiro patrão.
Esse vocabulário ajudou a criar identidade e acabou reproduzido por outros CTGs. Danças, indumentária, cerimônias e atividades também foram pesquisadas, selecionadas e organizadas. Isso mostra que o tradicionalismo não apenas conservou práticas: ele construiu formas urbanas e associativas para transmiti-las.
Limites e mudanças
O 35 CTG começou como ambiente masculino. As mulheres passaram a participar das atividades cerca de um ano depois, em 1949. O dado é importante porque recorda que as entidades mudaram com o tempo e que a imagem atual não deve ser projetada sem cuidado sobre sua origem.
Também seria incorreto atribuir o movimento a uma única pessoa. Paixão Côrtes, Barbosa Lessa, Glaucus Saraiva, Antônio Cândido e muitos outros desempenharam papéis diferentes. O que se consolidou foi uma obra coletiva, com acordos, debates e escolhas.
A expansão
O modelo encontrou terreno fértil. Novos CTGs surgiram no Rio Grande do Sul e acompanharam migrações para outros estados e países. Congressos, federações e o MTG deram coordenação à rede. Aquela reunião de jovens em Porto Alegre acabou influenciando a maneira como milhões de pessoas passaram a representar a cultura gaúcha.
Conhecer essa origem não diminui a tradição. Pelo contrário: permite enxergá-la como criação humana, situada no tempo e capaz de continuar aprendendo.
Fontes consultadas
- Movimento Tradicionalista Gaúcho. História do MTG.
- Movimento Tradicionalista Gaúcho. Caderno Piá — Origem do 35 CTG e dos Festejos Farroupilhas (2017), acervo documental do projeto.
- UFRGS. Acervo e textos de Jocelito Zalla sobre tradicionalismo.
