A cultura do Rio Grande do Sul nasceu de muitas camadas históricas. Algumas se encontraram de forma espontânea; outras foram produzidas por guerras, escravidão, expulsões e projetos de ocupação. Conhecer essa formação exige celebrar as trocas culturais sem esconder os conflitos que também moldaram o território.
Um território indígena
Antes da chegada dos europeus, a região era habitada por diferentes povos. Guarani, Kaingang, Charrua e Minuano são alguns dos nomes mais presentes nas fontes históricas, mas essas denominações reúnem trajetórias diversas.
O conhecimento indígena aparece na relação com rios, matas e campos, no vocabulário, no uso de plantas e em alimentos que atravessaram gerações. A erva-mate é um dos exemplos mais conhecidos. A Tava de São Miguel, reconhecida pelo Iphan como lugar de referência para o povo Guarani, recorda que os remanescentes missioneiros não são apenas ruínas europeias: integram uma paisagem de memória indígena viva.
Missões, fronteiras e ocupação colonial
As reduções jesuítico-guarani, organizadas a partir do século XVII, formaram povoados, rebanhos e redes econômicas. Ao longo do século XVIII, Portugal e Espanha disputaram o extremo sul, construindo fortes, distribuindo terras e movimentando populações. Tratados assinados longe dali alteravam fronteiras que, no cotidiano, continuavam permeáveis.
A pecuária ganhou importância nesse espaço de campos. Estâncias, tropeadas e trabalhos ligados ao couro e ao gado ajudaram a formar o tipo social do gaúcho do Pampa. Essa experiência foi compartilhada com as regiões que hoje pertencem ao Uruguai e à Argentina.
A partir de 1752, famílias açorianas estabeleceram-se em diferentes pontos, como Rio Grande, Mostardas, Porto Alegre, Taquari e Santo Amaro. Sua presença contribuiu para a agricultura, a formação de vilas, a religiosidade, as festas e práticas culinárias.
Escravidão e presença negra
Durante muito tempo, uma imagem embranquecida do estado minimizou a importância da população negra. Os registros mostram outra realidade. Pessoas africanas e afrodescendentes estiveram presentes desde os primeiros momentos da colonização, trabalhando em atividades urbanas e rurais.
Nas charqueadas da região de Pelotas, a exploração da mão de obra escravizada sustentou uma economia que enriqueceu proprietários e marcou a organização social do sul do estado. A população negra também participou das guerras, inclusive da Revolução Farroupilha, e criou irmandades, clubes, territórios quilombolas, celebrações religiosas, músicas e redes comunitárias.
A abolição não veio acompanhada de terra, renda ou políticas suficientes de inclusão. Compreender a cultura gaúcha exige, portanto, reconhecer tanto as contribuições negras quanto o racismo que procurou apagá-las.
Imigrações e novas paisagens
No século XIX, projetos oficiais de colonização receberam imigrantes europeus. A imigração alemã, iniciada em 1824, concentrou-se inicialmente no Vale do Sinos e depois se expandiu. A italiana, a partir de 1875, marcou a Serra. Poloneses e outros grupos se estabeleceram em diversas regiões. Essas comunidades desenvolveram pequenas propriedades, ofícios, indústrias, associações, escolas, festas e tradições alimentares.
Não foram mundos fechados. A vida cotidiana promoveu empréstimos de palavras, receitas, ritmos e técnicas. A própria prática do chimarrão atravessou diferentes grupos e tornou-se uma referência compartilhada.
Urbanização, comunicação e cultura contemporânea
No século XX, a industrialização e a urbanização mudaram a distribuição da população. Muitos moradores deixaram o campo, mas levaram consigo memórias, costumes e formas de sociabilidade. Foi justamente em Porto Alegre, num ambiente urbano, que jovens vindos do interior criaram o 35 CTG em 1948.
O rádio, o disco, a televisão e depois a internet ampliaram a circulação de músicas, imagens e narrativas sobre o estado. O tradicionalismo, o nativismo, o carnaval, o rock gaúcho, o rap, a produção literária e muitas outras cenas culturais passaram a dialogar e, por vezes, a disputar o significado de ser gaúcho.
Uma formação que continua
A história cultural não terminou com as grandes imigrações do século XIX. Novas migrações internas e internacionais continuam transformando o Rio Grande do Sul. Pessoas vindas de outros estados e países trazem repertórios que se combinam com os já existentes.
Em vez de imaginar a cultura gaúcha como herança pronta, faz mais sentido vê-la como trabalho coletivo. Cada geração recebe práticas do passado, escolhe o que deseja preservar e acrescenta novas experiências ao que o Rio Grande do Sul entende por sua cultura.
Fontes consultadas
- Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul. Ocupação do território.
- IPHAN. Lugar de referência para Guaranis ganha Plano de Salvaguarda.
- IPHAN. Patrimônio material no Rio Grande do Sul.
- Governo do Rio Grande do Sul. RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento.
- Governo do Rio Grande do Sul. Referencial Curricular Gaúcho.
