O sopapo e a presença negra na música do Rio Grande do Sul

Grande, grave e feito para ressoar, o sopapo é um tambor associado à cultura negra do sul do Rio Grande do Sul, especialmente a Pelotas. Sua história atravessa charqueadas, carnavais, escolas de samba, palcos e projetos culturais. Ouvi-lo é encontrar uma parte da música gaúcha que durante muito tempo ficou fora de sua imagem mais…

Grande, grave e feito para ressoar, o sopapo é um tambor associado à cultura negra do sul do Rio Grande do Sul, especialmente a Pelotas. Sua história atravessa charqueadas, carnavais, escolas de samba, palcos e projetos culturais. Ouvi-lo é encontrar uma parte da música gaúcha que durante muito tempo ficou fora de sua imagem mais divulgada.

Um tambor de muitas memórias

As narrativas sobre a origem do sopapo relacionam o instrumento às populações negras das charqueadas. Como ocorre com muitas tradições transmitidas pela prática e pela oralidade, detalhes variam e nem todas as afirmações possuem o mesmo apoio documental. O que está bem estabelecido é sua presença na cultura carnavalesca de Pelotas e a atuação de mestres que conservaram modos de construir e tocar.

O corpo tradicional é largo e pode ser feito de madeira, com pele animal tensionada. O som profundo oferece base rítmica e também marca presença física: o tambor não passa despercebido numa roda ou cortejo.

Do carnaval a novos encontros

Mudanças nas baterias e nos formatos de carnaval reduziram o uso do sopapo em certos períodos. No fim do século XX e início do XXI, músicos, pesquisadores e produtores trabalharam por sua retomada. Oficinas, gravações e encontros aproximaram mestres antigos e novas gerações.

O projeto Cabobu, desenvolvido em Pelotas, tornou-se referência nesse processo ao articular oficinas de construção, apresentações e reflexão sobre a musicalidade negra. O instrumento também passou a dialogar com canção, jazz, música popular e produções experimentais.

Patrimônio que precisa de pessoas

Preservar um tambor não é guardar um exemplar numa vitrine. É manter conhecimento sobre escolha de materiais, montagem, afinação, toque e contexto. Isso exige reconhecer os mestres e remunerar quem ensina, constrói e toca.

O sopapo também questiona uma divisão artificial entre “música gaúcha” e “música negra”. Se foi criado e mantido por comunidades negras no Rio Grande do Sul, ele é parte da música negra e da música gaúcha ao mesmo tempo. Ampliar o repertório não retira espaço de outras manifestações; torna o retrato do estado mais verdadeiro.

Onde conhecer

Programações culturais de Pelotas, projetos universitários, grupos de percussão e acervos sobre o carnaval são bons pontos de partida. Ao assistir a uma apresentação, procure conhecer o nome dos músicos e mestres envolvidos. Instrumentos têm história, mas são as pessoas que lhes dão voz.

Fontes consultadas


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