Os Lanceiros Negros foram corpos militares formados principalmente por homens negros durante a Revolução Farroupilha. Muitos eram escravizados recrutados mediante promessa de liberdade; outros podiam ser libertos. Lutaram por uma causa dirigida por proprietários que viviam numa sociedade escravista, contradição indispensável para compreender sua história.
Guerra e promessa de liberdade
As forças farroupilhas precisavam de combatentes. A incorporação de homens escravizados oferecia uma possibilidade concreta — embora incerta — de conquistar liberdade por meio do serviço militar. Esses soldados atuaram em combates e tornaram-se conhecidos pela lança e pela cavalaria.
Não se deve tratá-los apenas como vítimas passivas nem romantizar a escolha. Eles agiram dentro de possibilidades limitadas, enfrentando riscos extremos e negociando o próprio futuro. A promessa de liberdade fazia da guerra uma questão pessoal, não somente política.
O ataque de Porongos
Na madrugada de 14 de novembro de 1844, tropas imperiais comandadas por Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, atacaram o acampamento farroupilha na região de Porongos, atual município de Pinheiro Machado. Muitos Lanceiros Negros morreram, foram feridos ou capturados.
Uma carta atribuída ao comandante imperial e dirigida a David Canabarro alimentou a interpretação de que os combatentes negros teriam sido deliberadamente desarmados e entregues como parte de um entendimento para facilitar a paz. Essa hipótese marcou a memória pública, mas autenticidade, circunstâncias e alcance do suposto acordo são objeto de debate historiográfico.
O cuidado com a controvérsia não reduz a violência do episódio. A República Rio-Grandense se aproximava do fim, e combatentes negros armados, com reivindicação de liberdade, representavam um problema para elites de ambos os lados.
Depois da guerra
O tratado conhecido como Paz de Ponche Verde, em 1845, não resolveu de maneira transparente o destino de todos esses homens. Fontes apontam trajetórias diversas, incluindo incorporação a forças imperiais, liberdade, captura e possível reescravização. Generalizações fáceis escondem lacunas documentais.
Porongos tornou-se lugar de memória e de mobilização do movimento negro. Em 2026, o processo de tombamento federal do sítio avançou no IPHAN, reconhecendo sua relevância histórica e a necessidade de preservar o território.
Lembrar os Lanceiros Negros é perguntar quem pôde contar a Revolução Farroupilha e quais promessas uma sociedade escravista estava disposta a cumprir. É também devolver protagonismo a homens que lutaram por um futuro que não estava garantido.
Fontes consultadas
- IPHAN. Tombamento de Porongos avança no Rio Grande do Sul.
- Carvalho, Ana Paula Comin de. O memorial dos Lanceiros Negros.
- Movimento Tradicionalista Gaúcho. Caderno Piá — Escravidão e presença negra no Rio Grande do Sul (2020), acervo documental do projeto.
