A história da erva-mate não começa com o chimarrão tal como o conhecemos hoje. Muito antes da colonização europeia, povos indígenas já utilizavam a planta nativa — em especial grupos Guarani, cuja relação com a erva reunia alimentação, sociabilidade, troca e espiritualidade.
Com a presença ibérica e a experiência missioneira, o consumo se expandiu. Os jesuítas observaram o uso indígena, organizaram cultivos e ajudaram a inserir a erva em circuitos comerciais. Depois da destruição das reduções, conhecimentos e ervais continuaram a circular por um território que ainda não tinha as fronteiras nacionais atuais.
Uma planta de território compartilhado
A ocorrência natural da Ilex paraguariensis abrange áreas do Brasil, do Paraguai e da Argentina. Por isso, a história do mate é sul-americana e transfronteiriça. No Rio Grande do Sul, os ervais se concentraram sobretudo no norte e no noroeste, enquanto o consumo alcançou praticamente todo o estado.
Durante o século XIX e parte do XX, extração, beneficiamento e comércio movimentaram localidades e conectaram produtores rurais, trabalhadores, engenhos e comerciantes. A cadeia passou por ciclos de expansão e retração e conviveu com outras atividades agrícolas. O mate nunca foi apenas uma tradição doméstica; também foi trabalho e renda.
Da coleta ao produto atual
O processamento moderno preserva etapas antigas, embora a tecnologia tenha mudado. Depois da colheita, as folhas passam pelo sapeco, que interrompe reações naturais da planta, e pela secagem. Em seguida vêm trituração, peneiramento, armazenamento ou maturação, conforme o estilo de erva desejado.
Essas escolhas explicam diferenças de cor e sabor. Uma erva verde e fresca não é igual a outra que permaneceu maturando. A proporção entre folhas, talos e pó também muda a experiência na cuia. O produto final carrega decisões agrícolas, industriais e culturais.
Patrimônio vivo
Em 2021, o Rio Grande do Sul declarou a erva-mate patrimônio cultural imaterial do estado. A decisão não transforma a planta numa peça de museu. Ao contrário: reconhece um conjunto vivo de saberes, modos de fazer e relações sociais.
Esse patrimônio inclui agricultores, viveiristas, ervateiras, artesãos de cuias e bombas, cevadores e consumidores. Inclui também as comunidades indígenas que mantêm relações próprias com a planta e que não devem aparecer apenas como uma nota de origem. Reconhecer essa continuidade ajuda a contar uma história mais justa.
A erva-mate chegou ao presente porque foi adaptada muitas vezes. Hoje ela aparece no chimarrão e no tereré, mas também em chás, alimentos, cosméticos e pesquisas tecnológicas. Entre inovação e memória, a árvore segue ligando floresta, lavoura, indústria e mesa.
Fontes consultadas
- Embrapa. Processo histórico e geográfico da erva-mate.
- Governo do Rio Grande do Sul. Erva-mate é o primeiro patrimônio cultural imaterial do estado.
- Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul. Parecer sobre o registro da erva-mate.
